quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

CONTO: UMA MULHER VESTIDA DE SOLIDÃO


O encontro foi inesperado, um esbarrão no setor de produtos de limpeza de um supermercado. Demorei ao reconhece-la, estava diferente, sofrida. Depois do espanto inicial o constrangimento, um sorriso amarelo, forçado, e perguntas e respostas protocolares. Ela disse que estava bem, me devolveu a pergunta e obteve a mesma resposta. Mundo pequeno, falei, prazer em vê-la, ela compactuou com minha mentira e concordou. Seguimos para lados opostos.

A imagem da realidade começou a tomar o lugar daquela que estava registrada na estante da memória. O tempo já começara a destruir a fachada da beleza que entorpecia não apenas os maus sentidos, mas o da maioria dos homens que se aproximavam dela. Quantos não foram desprezados de forma cruel pela princesinha da rua no auge de sua juventude, quantos mais não foram destroçados pela mulher em início de reinado? Sim, porque toda jovem muito bonita ao abandonar a adolescência é uma rainha para alguém. Sempre há um homem apaixonado, ou vários, sonhando em ser seu consorte, em poder servi-la, em estar ao seu lado. Querem ser reis e se comportam como lacaios. Tolos apaixonados. Mas que homem não se torna tolo quando apaixonado?

O sofrimento e a idade, ou a idade e o sofrimento, diminuíram-lhe a beleza. Ainda havia algo de belo ali, mas sem esplendor. A arrogância da juventude cobrava seu preço. Os amores servis foram embora, os convites para festas, passeios, os presentes inesperados, tudo isso não mais existia. O homem que a amava, soube disso por um amigo, não era amado por ela. Estavam juntos porque o medo da solidão era maior que o amor próprio, então ela permitia que ele tomasse seu corpo e se iludisse ao seu lado. Ela tinha alguém e mesmo assim estava sozinha.

O tempo destrói a tudo de forma inexorável. Não apenas a aparência, alguns sentimentos também. A mulher que já me tirou o sono tantas noites, que me fez estremecer e perder o rumo não me despertava nada além de pena. Nem a saudade restou.

Pessoas imaginam a vida e a morte como sendo mulheres. Não acredito nisso. Caso vida e morte pudessem ser personificadas, a morte seria mulher, a vida não! A morte, quando não repentina, tenta redimir os seres humanos, mesmo causando-lhes algum sofrimento, convida à reflexão, estimula o perdão e no fim procura conceder paz.

A vida seria um homem rancoroso e vingativo. Não perdoa erros, não aceita desculpas, não esquece de cobrar dívidas e sente prazer em cuspir em nossa cara e depois dizer: “eu avisei que se fizesse isso iria sofrer”.

Caso nossa conversa tivesse durado mais que um ou dois minutos, aquela mulher poderia ter confirmado isso.


Emerson Luiz Galindo

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